Todos os sentidos de Almodóvar
18 dez 2009 / 2 Comentários
Novo filme do diretor espanhol, em cartaz em Toronto, traz Penélope Cruz na pele de uma atriz apaixonada por um diretor de cinema. A trama vem recheada de romance, humor e flashbacks.

Penélope Cruz e José Luis Gómez na nova produção de Almodóvar
Mesmo que você não saiba nada sobre o novo filme de Almodóvar que acaba de entrar em cartaz, basta conhecer um pouco do trabalho do espanhol para conseguir ter uma ideia geral do que vai encontrar no cinema: um drama romântico com pitadas de humor, traição, ciúmes e homossexualidade, que se passa num cenário colorido e vibrante e é protagonizado por atores com quem Almodóvar costuma sempre trabalhar.
Tudo isso se aplica a Abraços Partidos/Broken Embraces (Los Abrazos Rotos, 2009), mais recente filme de Pedro Almodóvar. A trama gira em torno de Mateo Blanco (Lluís Homar), um cineasta que se apaixona pela protagonista de um de seus filmes, Lena (Penélope Cruz), casada com um homem rico e poderoso. Mateo fica cego depois de sofrer um acidente em que, além da visão, perde também seu grande amor. A partir daí, ele vira Harry Caine, um escritor amargurado. Só depois de 14 anos, tem a chance de finalmente revisitar o passado e trazer à tona lembranças de Lena. Até então, ele não se permitia sequer tocar no assunto para não sofrer.
É então que acontece um dos momentos mais belos do filme: enquanto Diego (Tamar Novas) descreve para Harry uma cena que se passa na TV (trata-se do último beijo entre Mateo e Lena, segundos antes do acidente), Harry se aproxima e toca a tela da TV com a palma das mãos. Em seguida, pede pro rapaz colocar a cena bem devagar, quadro a quadro, para que ela dure mais e ele possa reviver aquele instante com mais intensidade.
Além da metalinguagem, aspecto que Almodóvar já havia abordado em filmes anteriores, também é marcante a forma como o diretor explora a força dos sentidos por meio do personagem que não enxerga. E é aí que reside a beleza da história: se, por um lado, a arte do cinema está diretamente ligada à visão, por outro, quando abraçamos ou beijamos alguém, é o olfato, o tato, a audição e o paladar que entram em ação. Esse interessante paralelo está bem explorado e aparece como um dos pontos fortes do filme.
O ponto fraco fica por conta da interpretação de Lluís Homar, que não convence muito no papel de um cego. Isso é notável especialmente no início do filme, quando o telespectador ainda não sabe que ele é mesmo cego e tem a impressão de que o personagem está apenas fingindo.
O desfecho da história nos passa a impressão de que Almodóvar talvez não soubesse como inventar um grande final, ou por falta de uma super ideia, ou porque o filme, de fato, já estava finalizado e dispensava qualquer esforço exagerado (uma outra boa sacada do espanhol). A solução encontrada, portanto, é posta em prática (mais uma vez) por meio da metalinguagem e com uma frase de duplo sentido: “Las películas, hay que terminarlas, aunque sea a ciegas” (É preciso terminar os filmes, mesmo que às cegas).
Não se pode prever o rumo que um filme vai tomar depois de acabado. Seja como for, o importante é começar e terminar. E, Almodóvar, sabe muito bem disso. Ainda bem.
Serviço
Broken Embraces
Direção: Pedro Almodóvar
Elenco: Penélope Cruz, Blanca Portillo, Lluís Homar, José Luis Gómez, Ángela Molina, Rossy de Palma
Duração: 128 min | Romance/Drama
Horários: acesse aqui.



Julieta, perfeita a análise sobre o filme ! Engraçado que tive a mesma sensação quanto ao Mateo, no início da película: achava que ele estava fingindo que era cego!
Observamos um Almodóvar mais introspectivo, lento (e denso), envolvendo o espectador com suas tramas instigantes. Adoro eese Pedro !!!!!
E você, mais uma vez arrasou !
Abraços mui queridos.
Oi, querida!
É verdade, e essa introspecção se reflete até mesmo no traço sexual, outra marca das películas “almodovarianas”. Percebemos um sexo mais adulto (representado por Lena e Mateo) e não tanto destaque para as paixões juvenis de outrora.
Um abraço de urso pra você! =)